Incendiar as certezas
Quando foi a última vez que você queimou uma?
Perguntar pra si mesmo: “e agora?”
E responder: “não sei”.
E se alguém pergunta se você tem certeza, agora você para, pensa e responde que, na verdade, não.
É que hoje você tem muito mais dúvidas do que certezas, inclusive até duvida das próprias certezas. E não é de hoje. Tem algumas que você nem duvida mais, pois tem uma certeza nova: elas já não te cabem mais.
Você já olhou pra algumas que tinha no passado e viu como elas envelheceram mal, ficaram desbotadas, justas, tipo aqueles vestidos com espartilho, do século passado. Fora de uso, démodé, cheio de mofo. Dá vontade de espirrar só de lembrar. “Ah, mas elas eram tão bonitas”, você me diz e eu te entendo, às vezes, é mesmo difícil desapegar daquelas que já tiveram um passado glorioso. Mas né. Certezas mofadas não são interessantes como morangos, os mofados, de Caio Fernando, o Abreu.

Você já se pegou rindo delas, num já? Eu sei que já. Tem umas que só pela misericórdia, né? São cômicas mesmo. Mas essas, as engraçadas, ainda são melhores do que as que seriam cômicas se não fossem trágicas. Dessas, em caso de vergonha, recomenda-se rir sozinho.
Imagina aquela certeza de que a Terra é plana? Não tô nem falando de gente que vive nesse século e ainda preserva esse tipo de certeza porque essa prosa não é com eles, isso aqui tá em outro nível e ritmo de cognição.
Eu tô falando de certezas empoeiradas. Dessas que a gente já abandonou no quartinho da bagunça há muito tempo. Ficaram largadas lá, seja porque perderam a utilidade e o sentido depois que foram derrotadas por argumentos lógicos e científicos ou porque ficaram totalmente desaplaudidas diante do autoconhecimento, da nossa intuição e evolução. Em suma, diante dessa versão atual, mais sabida - lógica e mística ao mesmo tempo - mais madura e… simples. :)
Teve uma vez que eu acendi um fogueira e queimei um monte de cacareco de certeza junto. Foi ótimo sentir o calorzinho da chama, mas quando ela amansou e o fogo esfriou, fui encontrando várias outras escondidas pelos cantos da casa. Tinha uma na prateleira mais alta da dispensa, outra eu achei no fundo de uma gaveta, daquelas que se guarda de tudo, inclusive uns troços que a gente pensa que vai ter utilidade um dia, mas acaba que nunca tem.
Com essas, eu fui fazendo diferente: no lugar de acumular, eu acendia meu “isqueiro de incendiar certezas” a cada vez que eu achava uma que não me servia mais. Confesso que de vez em quando encontro uma ou outra que eu provo antes de queimar pra ver se ainda cabe.
Só pra ter certeza.
E eu tenho quase certeza que as certezas não acabam assim, de uma hora pra outra, muito menos ao mesmo tempo. Umas sim, porque levam um monte a tiracolo. Mas a gente acumula tantas, mas tantas certezas, principalmente nas primeiras páginas da vida, que não tem como queimar tudo de vez. É uma brasa a cada nova etapa e experiência, a cada novo episódio. Tem que ser de mansinho, bem pianinho, pra gente ir se acostumando com essa nova versão, que ainda é a versão Beta daquela que a gente tá se transformando, que é a que mais se aproxima da nossa essência.
Em construção. Desculpe o transtorno, não estamos trabalhando para melhor atendê-lo, mas você será melhor atendido consequentemente mediante as atualizações do meu sistema que acumula mais perguntas do que respostas, que lida melhor com imprevistos e mudanças e enxerga sua miudeza diante dos mistérios da vida.
Uma coisa que eu percebi (e que você deve ter notado também) é que quando mais a gente envelhece, mais usa o isqueiro.
Vi, gostei, compartilhei:
Estou lendo dois livros que estão enchendo meus dias de incertezas (em meio a mais uma mudança) com um encanto incandescente: A Corneta, de Leonora Carrington, e A árvore mais sozinha do mundo, de Mariana Salomão Carrara.
E ainda tem essa lista de livros fantásticos, que quero muito ler.
Confiar desconfiando, porque a minha fase dos porquês também nunca passou.
Obrigada por ter chegado até aqui.
Curta, comente, interaja comigo. Vamos construir laços e memórias! ♥️
Para adquirir um exemplar do meu livro, é só clicar nele!
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Um beijo e até a próxima edição!
Roberta Simoni





adorei a reflexão! vou adotar o isqueiro tb.
sabe que no novo livro da Ana Rüsche, Ferozes Melancolias, ela diz que a certeza é uma loucura.
tô com ela e tô contigo. 💗
O melhor texto seu dos últimos tempos, as metáforas, sua assinatura, sua personalidade, aplausos!